Nesta pesquisa analisamos a produção de sentidos acerca dos termos “reféns israelenses” e “prisioneiros palestinos” nas coberturas jornalísticas das principais empresas que integram a grande mídia brasileira, a partir de uma perspectiva que articula a economia política da comunicação (Bolaño, 2000; Sodré, 2009; Moraes, 2003) e alguns referenciais da Semiolinguística discursiva (Charaudeau, 2008, 2015, 2016). Partimos do princípio de que a construção das representações jornalísticas não é um processo neutro, mas sim um campo discursivo moldado por dinâmicas de poder mediadas por lógicas econômicas, políticas e simbólicas. Sob o viés da economia política da comunicação, compreendemos que os maiores conglomerados midiáticos operam inseridos em estruturas empresariais concentradas, vinculadas a interesses econômicos e geopolíticos específicos. Diante disso, a produção noticiosa é atravessada por condicionantes institucionais que influenciam critérios de noticiabilidade, seleção de fontes e enquadramentos interpretativos. A guerra, enquanto acontecimento midiático de alta intensidade simbólica, torna-se espaço privilegiado para observar como tais estruturas contribuem para estabilizar determinadas leituras do conflito em detrimento de outras. A partir da Semiolinguística discursiva, o discurso midiático é entendido como prática social regulada por um contrato de comunicação específico, no qual o veículo constrói para si uma imagem de credibilidade e neutralidade, ao mesmo tempo em que organiza estrategicamente efeitos de sentido, que podem ser relacionados a categorias de nomeação, modalização e organização narrativa. Observa-se que a designação “reféns” associa aos israelenses capturados uma condição de vulnerabilidade incontestável, ativando valores humanitários universais e, ao mesmo tempo, produzindo forte efeito de empatia. Já a denominação “prisioneiros” ou, em alguns casos, “detidos” ou “suspeitos”, aplicada aos palestinos, tende a ser acompanhada por referências à segurança, terrorismo ou ameaça, deslocando o foco da vulnerabilidade para a suspeição. Enquanto a economia política da comunicação enfatiza a relação entre propriedade dos meios, regimes de produção e estruturas de mercado, a construção discursiva sobre reféns e prisioneiros revela como determinados elementos semânticos são utilizados de forma estratégica para reforçar, neutralizar ou mesmo desafiar contextos hegemônicos de legitimidade política. Com base em categorias de análise elaboradas por Charaudeau (2008, 2015, 2016), nossa proposta é investigar práticas enunciativas e efeitos de sentido construídos pelas grandes empresas de comunicação brasileiras sobre a guerra em Gaza. Os resultados parciais indicam que a mídia hegemônica do país promove uma assimetria nos discursos entre as representações de “israelenses” e “palestinos”, revelando uma padronização discursiva que associa maior valor humanitário e urgência moral às “vítimas” sionistas. Ao passo que categoriza o viés de insegurança promovido pelo acionar palestino e não ao projeto de ocupação colonial centenário. A resistência legítima é tratada de maneira ambígua ou subordinada, frequentemente vinculada a contextos de terrorismo, ameaça ou atividade política “perigosa”. Essa assimetria não se reduz à escolha de um léxico isolado, mas emerge de um sistema discursivo que articula enquadramentos temáticos, modalizações enunciativas e construções narrativas que naturalizam determinados pontos de vista enquanto marginalizam outros.
Comissão Organizadora
Sociedade EPTICC
Comissão Científica
Ana Beatriz Lemos da Costa (TCU/UnB)
Anderson David Gomes dos Santos (UFAL)
Antônio José Lopes Alves (UFMG)
Carlos Alberto Ávila Araújo (UFMG)
Carlos Peres de Figueiredo Sobrinho (UFS)
César Ricardo Siqueira Bolaño (UFS)
Débora Ferreira de Oliveira (UFMG)
Edvaldo Carvalho Alves (UFPB)
Fernando José Reis de Oliveira (UESC)
Helena Martins do Rêgo Barreto (UFC)
Janaina do Rozário Diniz (UEMG/UFMG)
Janaíne Sibelle Freires Aires (UFRJ)
Kaio Lucas da Silva Rosa (UFMG)
Lorena Tavares de Paula (UFMG)
Manoel Dourado Bastos (UEL)
Mardochée Ogecime (UFOP/UFMG)
Marília de Abreu Martins de Paiva (UFMG)
Rafaela Martins de Souza (Universidade de Coimbra)
Rozinaldo Antonio Miani (UEL)
Rodrigo Moreno Marques (UFMG)
Ruy Sardinha Lopes (USP)
Sophia de Aguiar Vieira (UFMG)
Verlane Aragão Santos (UFS)